sexta-feira, 7 de setembro de 2007

São Paulo

Aparecida (SP) 17 de agosto de 2007

Dia de estrada tranqüila, porém com muitos imprevistos, incluindo pneu furando, cordas prendendo na corrente e pro aí vai...

Cheguei à Catedral de Nossa Senhora da Aparecida e fiquei estupefato com dimensões tão grandes! Vê-se logo as religiões tipicamente masculinas devido ao complexo que os homens têm com tamanho, Freud explica, rs. Tudo é anormalmente grande e imponente por lá, como que para fazer a gente se sentir pequeno perante Deus.

Me impressionei com o poder que a religião tem sobre as pessoas. Vi gente chorando no altar, outros rezando emocionadamente, outros simplesmente agradecendo. Vi grupos de fiéis que vindo a pé de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e etc, em romaria. Mesmo não apreciando religiões, passei a respeitas profundamente essas pessoas.

Vendo tudo isso, fui ao mirante da igreja e refleti mais um pouco acerca de Deus. Sim, continuo ateu, porém aprendo a ver Deuses e Demônios e cada pessoal. Ao pensar assim, minha viagem pode ser considerada uma grande romaria, rumo a uma religião que criei pra mim mesmo.

A igreja mantém um albergue, onde dormi quentinho, tomei banho, jantei e tomei café pela manhã. Ta, é assistencialismo puro, mas não dá pra negar coisas assim na minha situação, né! Rs

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Ao passar por Taubaté, encontrei com um casal que me pediu remendo para pneu. Parei para consertar o pneu deles e paramos para conversar.

O rapaz, que se apresentou como “Baiano”, saiu do Rio Grande do Sul e ia para Cachoeira Paulista, com a namorada na garupa e apenas uma mohjila para os dois, pois estava desempregado há 1 ano e recebeu uma proposta de emprego em São Paulo. Sem um único centavo no bolso, pegou a namorada, uma bicicleta de ferro e sem marcha, e seguiu sua viagem há 20 dias atrás.

Perguntei como eles faziam para comer, e foi aí que o Baiano me ensinou a “manguear”, o que quer dizer passar nos restaurantes da estrada, falar da aventura e depois pedir um almoço. Disseram eles que enjoaram de tanto comer! Vou lembrar disso pelo caminho nas horas de fome.

Desde que saíram, eles trocaram a bicicleta por uma pior, porém com aros mais fortes para agüentar a namorada na garupa, venderam a barraca para comprar remédios e por aí vai. Um cara desses teria ido longe se estivesse em uma grande empresa e tivesse tido ou feito outras oportunidades na vida.
Eu tenho que mostrar a história desse dois para a minha mãe, pra ela ver o que ser doido de verdade! Rs
OBS: Saudades, muitas saudades do meu povo no Rio de Janeiro...


SP – Presidente Prudente, 26 de agosto de 2007.

Pra vocês verem como mãe é mãe...

Estava eu na estrada, quando recebo a ligação da dona Heloiza. Entre outras coisas, ela me diz o seguinte: “Ricardo, você ta sentindo alguma coisa no pé? Hoje sonhei que seu pé tava cheio de carrapatos... isso não é coisa boa!”.

Na noite passada eu havia cortado o calcanhar cavalgando. Um machucadinho bobo, mas por via das duvidas tasquei band-aid e pomada! Minha mãe não costuma errar com essas coisas.

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Inexplicavelmente os fatos cotidianos se encaixam perfeitamente, fazendo com que tudo de certo na viagem. Quando a noite caiu, eu ainda estava na estrada e me faltavam 20 km para chegar ao meu destino.

De repente vejo na estrada um carro com um senhor que parava para descansar em seu parati velhinho, quando parei para conversar com ele para saber do local mais próximo para acampar. Depois de um bom bate papo, ele topou me dar uma carona, mas avisou que não arrumaria lugar para eu dormir.

Quando eu estaca tirando a Capitu do carro, ele começou a me sugerir alguns pensionatos baratos para eu dormir, quando uma jovem moça passou por nós e nos ouviu, e logo disse que sua mãe cuidava de um pensionato ali pertinho! Ao chegar à pensão, contei a historia para a moça (Dona Vera), e ela resolveu não me cobrar nada. “Deve ser pecado cobrar de um menino desses! És um menino abençoado, meu filho!”, dizia ela para mim efusivamente.

Abençoado, eu?!Parando para ver, sinceramente acho agora que sim. Sou abençoado por cada pessoa que encontro no caminho, por isso me sinto muito feliz e cada vez mais apaixonado por nossa gente.



São Paulo, Presidente Epitácio 27 de agosto de 2007.

O desafio está aumentando gradativamente. Enfrento diariamente ventos muito fortes, me fazendo pedalar em pé nas até nas poucas estradas planas. Se continuar assim, vou acabar me esquecendo para que me serviam os freios! Rs Quanto mais eu pedalo, mais o tempo castiga, as subidas aumentam e as estradas pioram. Bom treino para começar!

Hoje dormi na casa de um padre, um alegre senhor chamado Francisco, que é italiano e está em missão no Brasil há 16 anos. Ele me fez uma macarronada italiana de brócolis, me deu cama, conforto e divertidíssimas conversas. Quando ele perguntou da minha religião, não tive coragem de dizer que era ateu, e muito menos para mentir para meu anfitrião, por isso apenas disse que havia sido batizado na Igreja da Penha, desconversando falando sobre a magnífica vista que se tem de lá. Acho que colou, mas vão acabar me dizendo que é pecado enrolar um padre.

Enquanto comíamos, o padre me perguntou o que eu fazia antes de resolver pedalar a América, e lhe disse que trabalhava com RH mas que pedi demissão para realizar este grande sonho. Francisco me disse que muitos devem achar isso um desperdício de tempo e uma grande loucura, mas que eu não ligasse para isso e seguisse em frente. Para ilustras o que disse, ele utilizou uma metáfora (ele era ótimo com isso!) de um salmo ou algo do tipo. “Quando jogamos uma semente na terra, aparentemente ela está sendo jogada fora, quando poderíamos comê-la. Mas os que sabem quando e o que plantar, colhem os frutos com o tempo”. Precisava de uma metáfora dessas pra dizer pro pessoal antes de ir... mas agora já era. Rs

Definitivamente estou ficando emotivo demais com o tempo. Até metáforas bíblicas me comovem agora!! Fala sério.

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