sábado, 13 de outubro de 2007

Potosi - Hospitalidade e partida de futebol.

Bolívia – Potosi, 17 de setembro de 2007.

Como começou a chover e ventar muito forte enquanto eu estava ao pé da serra de Potosi, resolvi parar para descansar no pequeno povoado de Viña Pampa. Que lugar mais isolado e aconchegante!

Cinco minutos após minha chegada, toda a cidade se juntou para me recepcionar (digo toda mesmo, pois são apenas 250 habitantes), com hospitalidade e curiosidade tão grandes que fizeram com que eu me sentisse em casa, e olha que essa é a primeira vez que sinto isso na Bolívia. Passei a tarde com as crianças, vendo o quanto elas são iguais em toda parte, pois a vida é que nos modifica com o tempo. Brincaram com a Capitu, tiramos fotos, me contaram piadas e até tentaram me ensinar um pouco de quéchua (que obviamente entendo patavinas).

Ao anoitecer me juntei com o pessoal mais da minha idade para jogar futebol, com a cidade inteira ao lado do campo querendo ver o “gringo desajeitado” jogar. Como aqui o pessoal joga muito mal, pelo menos para os padrões brasileiros, posso dizer a modéstia de lado e dizer que joguei muito! Dei ovinho, lençol e fiz quatro gols, sendo um deles driblando dois e mais o goleiro! As meninas se juntavam nas laterais do campo e gritavam em coro “gringo, gringo!”, foi muito divertido. Me senti o próprio Ronaldinho, mesmo sabendo que sou considerado um grande perna de pau no Brasil. No final da partida, fizemos guerra de lama e tomamos banho de chuva, como nos meus tempos de infância.

Posso com seguridade dizer que hoje foi o primeiro dia em que realmente curti o pessoal da Bolívia. Estava preocupado com isso, mas agora está tudo em paz. Cara, que gente simples e feliz.

domingo, 16 de setembro de 2007

Bolívia - Perrengue mais grave

Bolívia, Santa Cruz da Serra – 14 de setembro de 2007.

Hoje cometi meu primeiro grande erro, que pretendo não repetir mais, para minha própria segurança.

Quando ainda estava capital Santa Cruz (há 300 km atrás), pedi informações a um taxista sobre o caminho mais curto até Sucre, fazendo o mesmo com outra pessoa para confirmar a informação. Até me deram o caminho mais curto, mas não me informaram que era com 300 km de asfalto e mais 300 de semi-deserto, com estrada de cascalho ou areia fora, sem água e com subidas impedaláveis. Ainda por cima, no início da estrada ruim me disseram que o asfalto viria depois de uns 20 km no máximo, por isso fiquei no meio desse semi-deserto, tendo que pedalar mais 35 km de subida pra chegar até o próximo ponto com água e alguma civilização.

Quando me dei conta, estava eu no meio desse lugar desconhecido e nada amistoso, com apenas 400ml de água, tendo que pedalar por subidas ladeadas de abismo, cm caminhões escorregando e etc. Para chegar até o próximo povoado tive que pedalar durante a noite, mal sabendo que tipo de bicho tinha por ali.

Esse é um típico caso em que coragem demais seria sinal de loucura de verdade, por isso decidi pegar carona assim que chegasse nesse povoado. Felizmente deu tudo certo e agora está tudo bem! Preciso aprender com esse erro para não fazer isso de novo, caso contrário os resultados podem ser nada agradáveis...

Bolívia - Culinária local

Cara, como a comida daqui é diferente da que comia no Brasil!! Acompanhem a rotina:

1 – Café da manhã: Um pãozinho duro parecido com pão de hambúrguer, que se come sem manteiga nem nada. Para acompanhar, Tody COM ÁGUA. O detalhe é que servem tudo pelando de quente, independente do calor que esteja. Até para se pedir refrigerante é preciso diferenciar se eu o quero quente ou frio.

2 – Almoço e janta: Antes de tudo, foi uma confusão danada pra descobrir como funciona o sistema de refeições na Bolívia. Primeiro te servem uma sopa, depois um negócio que eles chamam de “segundo”, que é basicamente uma comida seca, com alguma carne, arroz e batata frita ou cozida. Pombas, agora imaginem o que era descobrir qual era a comida quando o camarada chegava e dizia “mira, hay sopa y segundo para cenar”!

Ah, e como se come frango por aqui!! Frango picante, frito, cozido, broaster (frito na pressão) e de diversas outras maneiras.

3 – Bebidas: Digamos que os refrigerantes têm sabores no mínimo diferentes para mim, acostumado com guaraná, coca e etc. Têm refrigerantes de mamão, côco, tamarindo, melancia, pêssego e por aí vai. De vez em quando eu encontrava uma bebida mais careta, tipo de limão ou laranja, mas no geral comia tudo com água mesmo.

Minha bebida salvação foi um treco chamado “Pilfruit”, que é um suco com iogurte, vendido em saquinhos de 170ml pela bagatela de R$ 0,10 (0,50 bolivianos, na moeda local). Esse suquinho é vendido extremamente gelado, sendo ótimo para estabilizar a temperatura do corpo quando o sol bate na cuca da gente o dia inteiro.
Ai, que saudade da comida e da bebida do meu Brasil!! Tenho até sonhado com feijão, guaraná, suco de açaí e etc...rs

Bolívia - Primeiros obstáculos

Bolívia, Santa Cruz da Serra, 13 de setembro de 2007.

Escrevo agora de um povoado isolado chamado Hierba Buena, já sentindo que o buraco é muito, mas muito mais embaixo MESMO quando se trata de pedalar na Bolívia. Quando se pede informação, dizem aqui que a estrada é plana quando a subida tem menos de mil metros, pois aqui é mais do que natural pedalar por algumas serras assim diariamente (mil metros equivalem a serra de Petrópolis).

Somente hoje subi três “serrinhas” desse tipo, sem contar os ventos muito fortes que fazem a Capitu parar mesmo enquanto estamos na descida (imaginem pra subir como é). Pedalar na Bolívia definitivamente não é para qualquer um! Não vou dizer que o meu corpo não está sentindo a dificuldade tremendamente aumentada, mas sinto que meu corpo está se adaptando muito bem.

Outra grande dificuldade é que não se consegue comida por aqui, por isso tenho sempre que pagar por todas as refeições. Pelo menos tudo aqui sai muito barato, devido à moeda daqui ser muito fraca com relação ao Real – Pra se ter uma idéia, dá pra almoçar e tomar um refrigerante vagabundo com o equivalente e R$ 2,00. Creio que minha escassa grana vai durar no máximo até Cusco, por isso vou ter que pensar em alguns trabalhinhos pra fazer por aqui, tipo limpar banheiro, chão e demais bobagenzinhas que só faz quem precisa muito! Rs


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De início, o idioma foi uma grande barreira, pois eu não estava acostumado com a rapidez verbal e o sotaque boliviano. Já me adaptei e agora vivo tudo em espanhol: Troquei o idioma do celular, vejo e ouço tudo neste idioma também. Para minha agradável surpresa, já estou pensando e até sonhando em espanhol!

Bolívia - Primeiras impressões

Bolívia, Porto Suares, 11 de setembro de 2007.

Como todos disseram que a estrada até Santa Cruz da Serra é impedalável, com alguns ciclistas me desaconselhando a pedalar no trajeto, resolvi pegar o famoso “trem da morte”. Aliás, o trem que tinha na hora não tinha nada de “da morte”! Tinha ar condicionado, muitos seguranças, serviço de bordo e até filminho do Chuck Norris passando na TV! .Vocês não imaginam como é divertido ver Bradock dublado em castelhano!!!rs

Fora isso, começo a ficar preocupado com o que me aguarda quanto ao povo boliviano. Espero estar enganado, mas tive hoje amostras de muito pouca hospitalidade aqui por essas bandas.

Para quem se acostumou com a hospitalidade brasileira, foi um choque inicial ver como os bolivianos tratam viajantes como eu. Primeiramente, todo mundo tenta me enrolar por qualquer motivo pra tentar arrumar alguma grana, mal sabendo que viajo sin una plata!rs. Pra se ter uma idéia, houve um momento em que eu precisava subir com a Capitu cheia de peso por algumas escadas, quando um boliviano “muito gentil” me disse:
- Amigo, deixa que eu ajudo a carregar!
- Se puder, agradeço muitíssimo, mas você vai me cobrar por isso? - Perguntei
- São cinco bolivianos!

Após ouvir que eu não tinha dinheiro, a simpatia do rapaz agora era uma cara fechada, que se virava sem dizer nada.

Percebo também que talvez não haja tanta prestatividade por aqui, como algo cultural mesmo pelo visto. Quando eu estava na fila do trem, com toda a bagagem da Capitu nas costas e com as duas mãos ocupadas, pedi ajuda a ma pessoa da fila quando uma sacola minha caiu no chão. O rapaz fechou a cara e olhou para o outro lado (pelo menos não resolveu me cobrar), quando fiquei pasmo e repeti o pedido, quando ele de cara fechadíssima pegou a bolsa do chão. Realmente para mim isso foi um choque cultural muito grande, pois isso no Brasil é algo mais do que natural e nem se precisaria pedir normalmente. De toda forma, me serve de aprendizado ver que o que para mim é natural nem sempre se aplica ao outro também, vice e versa.

domingo, 9 de setembro de 2007

Rumo a Bolívia!!

Mato Grosso do Sul, Corumbá – 08 de agosto de 2007.

Depois de 120 km de estradas de terra fofa, eis que escrevo à beira da fronteira com a Bolívia. Sinto que estou preparado para seguir em frente, tanto física quanto psicologicamente.

Me despeço do Brasil tomando banho de rio e conversando com todos por aqui, fazendo também um check-up geral na Capitu.

Galera....BOLÍVIA, AÍ VOU EU!!!!!!!!!!!

Tribo indígena no Pantanal

Mato Grosso do Sul, Aldeia Indígena Cachoeirinha – 05 de setembro de 2007.

Antes de ir para a tribo dos índios, passei algumas horas com os moradores da cidade (Miranda), descobrindo que eles, apesar da proximidade, não conheciam absolutamente nada deles, tendo apenas diversos preconceitos como base - descobri que o racismo com os índios é muito forte por essas bandas. Mesmo assim, fui ver de perto com índio como eles eram, e confesso que fiquei maravilhado e encontrei aqui o melhor ponto da viagem: A tribo Terena de Cachoeirinha!

Os povos Terena são originários do chamado “Chaco Paraguaio”. Eles falam sorrindo, mantém boa parte da própria cultura e recebe muito bem quem os respeita. Antes de mais nada, pedi autorização do cacique para permanecer ali, e ele me ofereceu sua casa para eu dormir e me apresentou a toda a aldeia como “um branco que queria saber da gente deles”.

Os índios de lá já são bastante civilizados. Eles têm posto de saúde, escolas com merenda fornecida pelo governo, orelhões, casas de tijolos e até um computador. Inclusive o cacique é eleito através de voto direto, com um mandato de 4 anos com direito a uma reeleição, como um prefeito mesmo. Mesmo falando e escrevendo normalmente o português, os índios se comunicavam entre si na linguagem ancestral deles, o Aruak.

Infelizmente ainda lhes cabe nas relações de trabalho com o branco a parte mais difícil e explorada. Os índios que não sobrevivem de artesanato, caça ou pesca ficam 70 dias nas lavouras de cana, sem sombra, bebendo água quente e trabalhando mais de 12 horas por dia. Eles dizem que o governo melhorou as condições de trabalho em alguns canaviais, mas somente os que são legalizados (minoria na região).

Passei o dia inteiro conversando com os moradores da aldeia, passando nas escolas, lavouras, casas e cada esquina, ouvindo cada uma das pessoas de diferentes idéias e idades. Confesso que vi muito mais dignidade neles do que em nós, homens brancos. Ganhei sementes de Pau Brasil (será que se eu plantar no Rj nasce?) e um livro didático sobre a história dos povos Terena.

De tanto presenciar as histórias dessa gente, acabei pensando em idéias simples e sem custo algum que ajudariam tremendamente a eles nas áreas de agricultura, educação e cultura. Tirei o dia seguinte para marcar a qualquer custo uma audiência com a prefeita da cidade para expor as minhas soluções, que apresento logo abaixo. A assessora da prefeitura disse que eu teria de marcar audiência com 1 mês de antecedência, mas disse que era um viajante e teria apenas aquele dia para falar com ela, por isso ficaria ali até conseguir 5 minutos de bate papo. Parece que deu certo.

1 – As escolas da aldeia vão até o ensino médio, mas há um grande abismo que ainda separa os índios da universidade. Mesmo com o acesso diferenciado, a bolsa de estudos da Funai demora 3 meses para cair, e os índios não podem se sustentar nas faculdades de tempo integral durante esse tempo, com despesas de moradia e alimentação. Até há um fundo para estas despesas, mas eles correspondem a somente 10% da necessidade dos índios.

- Pombas, já que o índio vai receber a grana retroativa, porque não conceder um empréstimo para quem comprovar que passou no vestibular e recebeu a bolsa da Funai? Seria um empréstimo de apenas 3 meses e com baixíssima taxa de inadimplência, afinal eles têm uma grana certa pra receber, além do que já é provado que a inadimplência diminui conforme o poder aquisitivo diminui também.

A prefeita me disse que pode ser feita uma parceria com a Fundação Bradesco, e o fato da ausência de custos facilitaria a aprovação do projeto. Liguei para o Diretor da escola da aldeia para passar as instruções e cobrar os resultados. Agora é com ele.

2- Os índios receberam tratores e sementes para o plantio, mas desconhecem as melhores técnicas para lidar com a terra, por isso as plantações raramente vingam.

- Me reuni com o secretário de agricultura, dizendo que eles perderiam dinheiro sucessivamente enquanto não mostrasse ao índio as melhores práticas de plantio. Basta mandar para as tribos um profissional da Embrapa para estudar a terra e passar o conhecimento aos índios. Caramba, isso não tem custo algum!!

O secretário assinou um documento se comprometendo a mandar um técnico da Embrapa ao local. Agora o cacique que cuide para fazer com que a promessa se cumpra.

3 – Distância cultural entre brancos e índios.

- Imaginem comigo: Se eu, que fiquei 2 horas conversando com as pessoas da cidade, já ouvi diversos preconceitos que não procediam com a realidade que vi com meus olhos, imaginem como cresce uma criança por lá? Quando indaguei para a prefeita sobre a ausência de trabalhos de integração de culturas, ela me disse que sempre fazia feiras de artesanato e que uma vez até havia mandado as crianças para fazer cerâmica com os índios.

Contive a raiva e disse apenas que assim o problema de integração só aumentaria, pois assim todo mundo vai associas o índio somente a arte e etc, quando eles tem muito mais a oferecer! Se fosse mandado um ônibus da escola para a tribo, as crianças poderiam passar o dia com as crianças da tribo e ouvir o povo de lá. Após isso, não me interessa se as crianças vão ter uma impressão boa ou ruim dos índios. Apenas quero que eles formem opinião com o que eles vêem, como eu fiz.

Fiquei feliz pela possibilidade de ajudar de alguma forma esse povo que me acolheu tão bem! Vou ligar para o cacique ao final da minha viagem para ver se minhas idéias deram algum fruto.