sábado, 13 de outubro de 2007

Despedida de Potosi

Bolívia – Potosi, 24 de setembro de 2007.

Hoje me despeço de Potosi, com uma saudade que mal cabe em mim. No começo da manhã me despedi dos mineiros, depois dos amigos do albergue, depois dos novos amigos espalhados pela cidade.

A despedida sempre é a parte mais difícil para um viajante como eu... Mas enfim, tenho muito mais mundo para conhecer. Aos amigos potosinos , digo que parte de mim nestas vastas terras altiplanas. Saudades, saudades, muitas saudades...

Trabalhando nas minas de Potosi


Bolívia – Potosi, 23 de setembro de 2007.

Depois de muita insistência, consegui que me deixassem trabalhar por um dia nas minas de Potosi. Jamais havia visto trabalho sob condições tão precárias e perigosas.

Tudo começa no alto da montanha de Serro Rico, num um frio de zero graus, com o agravante da água que encharca o solo e deixa tudo pior quando entra pelas botinas. Conforme vamos adentrando a montanha, o oxigênio fica mais escasso, os espaços ficam cada vez mais sinuosos e claustrofóbicos e a temperatura começa a subir – chegando a insuportáveis 45 graus. Sob condições tão extremas, o trabalhador daqui tem uma jornada que varia de oito a até 24 horas (sem comer, apenas com folhas de coca nas bochechas), das quais agüentei apenas 3.

Antes de começar a jornada de trabalho, os mineiros oferecem folhas de coca para “El tio”, a estátua de um diabo, para que não ocorram acidentes e as minas continuem férteis. Quando perguntei sobre a inusitada religião, os trabalhadores disseram que são cristãos, mas que a mina é lugar da Pachamama (a Mãe Terra), e do diabo, que consome vidas neste inferno abaixo da terra. Por aqui não existe vida, não existe deus, apenas trabalho e muita resistência física e mental.

Por aqui eles sobes e descem por espaços minúsculos carregando até 40 quilos nas costas, com pouquíssimo oxigênio misturado ao pó de silício, que consome lentamente os pulmões. Enquanto eu tinha a nítida sensação de que meus pulmões necessitavam de mais do que a mina oferecia, via em contrapartida os mineiros plenamente adaptados com a dura rotina.

Nas regiões em que os turistas não têm acesso, espantadamente vi crianças de 12, 10 e até 8 anos trabalhando sem diferenciação de um adulto, sem saber o que é escola ou infância. Assim segue a vida por aqui, normalmente até a morte ou a aposentadoria, dentre as quais apenas a primeira opção é conhecida por eles. Para se aposentar pelo estado, o mineiro precisa possuir três fatores conjuntos: 65 anos, 50% dos pulmões comprometidos e 300 contribuições ao sindicato. Por exemplo, se você tem 65 anos, 50% do pulmão ferrado, mas não fez todas as contribuições, infelizmente precisará trabalhar um pouco mais.

Quando perguntei a José Luiz, um dos mineiros mais antigos de Serro Rico, porque se submeter a tudo isso, ele me fitou seriamente e disse:

- Amigo, não há outra maneira de sobreviver por aqui. Tenho 67 anos, por isso sou uma exceção entre poucos de nós que passam dos 50. Temos que fazer isso por nossas mulheres e filhos.

- E até quando acha que vai fazer isso? – Perguntei.

- Até que El tio me chame, amigo.

Ao ver que fiquei muito abalado com suas respostas, José sorriu e mudou o tom da conversa:

- Você trabalhava com o que, menino? Computador? É quase a mesma coisa! Tudo é questão de acostumar!

Não consegui sorrir com a brincadeira definitivamente séria demais para mim. Sendo assim, perguntei apenas de ele acreditava no que acabava de me dizer. No mesmo instante, José parou de sorrir e manteve uma dignidade comovente no olhar, dizendo:

- No começo eu não acreditava em nada disso, mas com o tempo educamos a mente para isso. Se pensar no quanto tudo é difícil eu nem posso entrar na mina, pois El Tio me devora mais rápido.

De tanto que estudei para me qualificar no trabalho, pensava que eles não conseguiriam fazer o que faço, porém constato que a recíproca é verdadeira. Amigos, conheci hoje as pessoas mais valentes e resistentes de toda a minha vida, sentindo na pele como a necessidade de sobrevivência nos leva a uma adaptação sob condições tão extremas de vida. Confesso que por hora não sei mais como vou voltar a trabalhar em meu computadorzinho, pois agora sei de fato que há muita gente que vive assim.

Aos sair da mina, curiosamente alguns trabalhadores vão para a igreja para agradecer a Deus por mais um dia. Pelo visto, aqui na mina é necessário andar de mãos dadas com Deus e o Diabo.

Potosi - Futebol com os mineiros


Bolívia – Potosi, 22 de setembro de 2007.

Hoje participei de um campeonato de futebol com os mineiros de Potosi. Como venho da “Terra do futebol arte”, olhava para as arquibancadas e via que todos apontavam para mim, imaginando que veriam um gênio jogar, coitados. rs Aliando este nervosismo ao fato de que eu não sou propriamente um craque, imaginem no que deu...

Aos dois minutos do primeiro tempo cruzaram a bola para mim na pequena área, quando apenas chutei o vento e caí de bunda no chão, que vergonha. O zagueiro adversário pegou a bola e aproveitou o contra ataque, marcando o primeiro gol da partida. Todos riam muito de meu infortúnio, menos o técnico, que estava vermelho de tanto gritar “brasileño de mierda!”, “Hijo del putra!”, entre outras expressões não exatamente amigáveis e hospitaleiras.

Porém, meu momento chegou no segundo tempo da partida. Como agora tenho relativamente um bom preparo físico, aliado ao fato de que os mineiros estão cheios de silício nos pulmões, apenas eu conseguia correr enquanto todos estavam cansados. Daí por diante tudo foi muito mais fácil, pois eu apenas precisava chutar a bola pra frente e sair correndo, que nem o Forest Gump, conseguindo fazer três gols até o final da partida. Infelizmente nosso time perdeu mesmo assim, mas como eu me diverti! Engraçado, eu estava acostumado a me divertir apenas quando vencia.

Como toda boa pelada, tudo acabou com muita cerveja e piadas. O técnico do meu time dizia aos outros que “o brasileiro joga mal que só, mas como corre!”. Por via das dúvidas, fico na arquibancada em caso de uma nova partida. Rs

Potosi - Amigos europeus do albergue


Bolívia – Potosi, 22 de setembro de 2007.

Estou hospedado em um hotel bem baratinho e simpático chamado Koala Den, onde convivo com mochileiros de todo o mundo, principalmente com europeus. Curiosamente, há poucos latinos visitando a América Latina. Acabei formando um grupo de amigos legal, aproveitando o pouco tempo que teremos juntos por nossos pontos em comum de viagem.

- Emma, a inglesa, também viaja de bicicleta, por isso temos feito ótimas pedaladas por Potosi e redondezas - Sim, de fato também pode ser interessante pedalar acompanhado. Nas horas de hotel, ela me ensina a pintar vasos de barro, por mais que eu ache que ela vai desistir em breve, pois sempre reclama que eu sou muito afobado e minhas mãos tremem. Rs

- Cedric, o francês, é um excelente piadista, capaz de ficar horas me sacaneando por causa da copa do mundo. Fazer o que, tenho que engolir essa. Rs

- Rubem, o Espanhol, é o cozinheiro do grupo.

- Rob Doyle, o irlandês, toca violão muito bem, além de ser uma ótima companhia para discutir política. É muito interessante confrontar os pontos de vista de um latino e de um europeu na política, para ver o que cada um pode agregar ao outro.

- Celine e Lidy, as holandesas inseparáveis, apenas nos acompanham e escutam cuidadosamente nossas conversas. De vez em quando soltam comentários inusitados, sobre detalhes da paisagem ou das situações que ninguém havia reparado.

Entre os vários novos amigos há muito outros, por isso detalhei apenas os principais. Haveria também muitas histórias com Ingo, o alemão que saca tudo de economia; Sonja, a alemã que se encanta por tudo que vem do Brasil; Thereza, a francesa que não toma banho, entre muitas outras figuras imperdíveis.

Em muitas noites não dormíamos, seja para conversar, andar pela cidade ou apenas jogar um bom pôquer. Com sorte minha consegui convencer a todos de jogar cartas sem apostar, senão teria perdido até as cuecas! Seja como for, tem valido a pena os dias ao lado de gente tão legal. Percebo diariamente o quanto somos simultaneamente diferentes e iguais. Nossas diferenças têm sem complementado, de modo a fazer com que os dias sejam simultaneamente divertidos, intensos e instrutivos. Vejo em cada um deles o mesmo brilho nos olhos inerente ao viajante, um misto de curiosidade latente e leveza de espírito. Não sei se dá pra explicar, mas quem viaja sabe do que falo.

Paixão por Potosi


Estou perdidamente apaixonado por Potosi, vendo aqui uma casa que tão bem me acolheu. Se antes pensava em apenas passar a noite por aqui, talvez fique pelo menos uma semana ou mais.

Hoje fiz muito radical até as águas vulcânicas de Tarapaya, só descida maneira. Como é um lago vulcânico, resolvi dar uma de descobridor e tentar chegar até o fundo. Depois de me cansar de mergulhar e perder o fôlego, resolvi tomar a inteligente decisão de perguntar a profundidade do local: “1000 metros”, respondeu o sujeito ao idiota que vos escreve agora. rs. Quem cuidava do local era um gentil senhor chamado Fred, que passou o a tarde comigo a contar lendas dos Incas. Falava de tesouros, cemitérios, rituais e muitas outras historias que me contagiavam e estimulavam a imaginação, como as crianças que ouvem historias do avô.

A lama vulcânica é muito divertida para brincar de passar no corpo, por isso não pensei duas vezes antes de fazer isso. Pra manter a fama de Joselito, taquei lama no alemão que estava do meu lado, que logo tacou em mim e no sueco a seguir. Conclusão obvia: Guerra de lama!!!rs muito divertido.

Amigos, amei este lugar de primeira, pois de alguma forma tudo aqui mexe profundamente comigo. Algo aqui me faz respirar mais leve (e não é a altitude!), como se houvesse uma profunda harmonia entre o espaço, as pessoas e eu.

Reflexões quase revolucionárias

Como havia dito nos primeiros trechos da Bolívia, não tinha me sentido muito à vontade com o povo daqui, mas minha opinião se modifica gradativamente. Se eu continuar neste ritmo, vou me apaixonar pro todos e me sentir um autêntico boliviano.

Aqui na Bolívia há muitos índios camponeses, que muitos ainda chamam de mitayos. Para suportar a dura rotina de trabalho que lhes é imposta eles mascam muita folha de coca, o que deixa suas bocas e dentes verdes e com uma gosma escura a escorrer pelos lábios, o que lhes confere um aspecto terrível. Nas típicas reflexões de pedalada, percebi que não fazia sentido o meu afastamento, pois estas pessoas eram o motivo da minha viagem. Sendo assim, resolvi passar o dia numa aldeia de mineradores de Potosi, disposto a ouvir cada palavra do que eles tinham a me dizer.

Ao conversar mais com estas pessoas - com um pouco de dificuldade, pois eles falavam mais quéchua do que castelhano- percebo mais uma vez que as fronteiras entre nós e o outro, assim como as fronteiras geográficas, são invencionices do homem. Descobri um povo extremamente pacífico e trabalhador, por isso me senti bastante envergonhado devido ao juízo inicial que fazia deles. De fato a exploração é algo rotineiro e ao mesmo tempo aceito entre eles, por isso agora sinto um certo nojo de quem os explora, não mais deles.

Mediante a uma rotina tão dura, confesso que esperava ouvir brados de ira ou algo do tipo, por isso fiquei surpreso ao verificar um misto de conformidade e garra para superar as adversidades diárias, me levando a pensar se o excesso de passividade lhes é prejudicial algumas vezes. Não sei, talvez fosse melhor usar esta garra tão grande para sair da exploração, não para sobreviver a ela.

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Graças ao bendito filme Diários de motocicleta, em muitos povoados me chamam de “compay Guevara”. Como detesto qualquer tipo de comparação, no início ficava bastante chateado, mas agora até atendo quando me chamam assim. Em comum talvez tenhamos a determinação que separa sonhadores de utopistas, ou também a vontade de conhecer o que só era visto nos livros, mas creio que as semelhanças parem por aí. Sinto decepcionar a muitos, mas não sou um revolucionário.

Sinto como se uma semente muita fértil estivesse germinando em mim, mas não faço idéia de quais serão seus frutos. Por hora, vou me deliciando com a gostosa sensação de ser mudado pelo mundo, depois posso pensar em mudá-lo, talvez.

Desafio - Subir os 4400 metros de altitude de Potosi


Bolívia – Potosi, 21 de setembro de 2007.

Depois de três dias e meio de subida dura, finalmente consigo chegar até a cidade povoada mais alta do mundo: Potosi.

Sabia que iria enfrentar a meu maior obstáculo até então, por isso sentia um misto de medo e preguiça ao imaginar que subiria com a Capitu até 4400 metros acima do nível do mar, assim como sabia que entraria no altiplano boliviano, o que significa enfrentar ventos mais fortes ainda (o que eu achava impossível) e temperaturas abaixo de zero.

Ao chegar à grande serra, via lá no alto a estrada onde eu devia chegar, sabendo que acima das nuvens havia mais caminho a seguir. Se eu imaginasse o obstáculo completo a transpor, com certeza não subiria a serra ou sequer sairia do Rio de Janeiro, por isso me concentrei em vencer cada quilômetro. Como subi muito lentamente o corpo se adaptou bem com a altitude, por isso não senti dor de cabeça, tontura ou algo do tipo, mas o grande problema era o ar que me faltava cada vez mais a cada metro. Se ao subir uma serra de bicicleta o ar já falta normalmente, acrescentem a isso o impacto do vento, do frio e da altitude para imaginar a dificuldade. No começo da serra eu pedalava 5 km e descansava, depois passei a descansar a cada 1 km, depois a cada 100 metros, depois 10, para finalmente, nos últimos 500 metros vencer, apenas carregar a Capitu. Não sei explicar com ou porque, mas sabia que conseguiria, por isso segui confiante até o final.

Ao chegar ao final da serra, olhava para baixo e não acreditava no que acabara de ter feito. Absolutamente esgotado, deitei a Capitu no canto da estrada, sentei-me ao seu lado e me pus a chorar compulsivamente, sem saber exatamente porque fazia aquilo – Me deu vontade e chorei, apenas isso. Ainda me pergunto como consegui, mesmo sabendo que não tenho todas as respostas para isso, então apenas me delicio com a gostosa sensação de pedalar entre as nuvens.

Sei que ainda estou no começo da jornada, e que desafios e recompensas maiores virão, por isso estou cada vez mais empolgado para seguir em frente. Puxa, imaginava desde a minha casa como seria difícil subir esta serra... Puxa, consegui!!!